Papo com Mauricio Pereira ou a Anatomia da naticlássica “Trovoa”

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Segunda música na lista dos “10 tesouros obscuros da MPB” do Fiz uma Lista, Trovoa, de Mauricio Pereira, é uma música assustadora. Composta em 2007 como uma síntese da relação intensa que o compositor tem com sua esposa ela arrebata corações desde que saiu do papel e ocupou o ar.

Primeiro o da parceira, que caiu em lágrimas no instante em que foi apresentada à obra prima, depois o Brasil dos botecos, dos teatros, do cenário underground e do Youtube. É impossível ser sensível e não se emocionar com essa canção que é, no final das contas, um grande registro histórico das relações humanas em nosso tempo, o tempo das grandes cidades, o tempo do homem apressado que ama, metade em desespero, metade em euforia, inteira em poesia.
Sem refrão, sem clichê, com uma letra quilométrica, Trovoa é, na mesma proporção, sutilmente despretensiosa e imponentemente solene; caminha como se soubesse que o destino lhe reserva grandezas.

Sobre essas coisas todas, tive a oportunidade, não, a honra de falar com o genial Mauricio Pereira, num papo especificamente sobre sua música. Não que não houvesse outras coisas pra falar, como a retomada do Mulheres Negras, sua ampla carreira para além do cenário musical e até de seu filho, que ano passado conquistou o país nos vocais de “O Terno”.

Trovoa é tão grande que serei perdoado das omissões em questão. Sem mais, vamos primeiro à letra e à música e depois ao papo!

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4. Trovoa – 5:23
(letra e música: Mauricio Pereira)

Disco: Pra Marte (2007)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
violões de aço e nylon  Tonho Penhasco
guitarra  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira

minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só

graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva
súbita…
súbita…

seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeira
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…

minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…

vou sossegado e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… acredita?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha me faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença

sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembra
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco

lebrando que um dia eu falei
“sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…”

minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…

ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica

e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor

Toda vez que eu ouço Trovoa, a impressão que eu tenho é “não é possível que ele disse isso! ele disse isso?”, e esse sentimento vai se repetindo ao longo da música. É espetacular porque não para! Você acha que eu tô exagerando, Mauricio? Ou Trovoa é tudo isso mesmo?

Trovoa é um caso gozado. É uma letra gigante, sem refrão, sem repetição, vai indo e não volta nunca mais… E é minha música com mais views na internet. Louco, né? Esse sentimento que você tem, talvez seja porque ela fala as coisas dum jeito que qualquer pessoa falaria, tipo, é tão comum, qualquer um podia ter dito isso em alguma hora dum dia qualquer, nem parece letra de música. Talvez seja isso. Mas realmente, pelo meu feedback, é uma música que mexe muito com a emoção das pessoas.

Essa música foi lançada em 2007, né? Ela foi escrita para alguém especificamente?

Tem muito a ver com a relação intensa que eu tenho com a minha mulher. E aí eu viajo, fantasio, crio cenas em cima, multiplico tudo, pra virar uma canção. Quando ela ouviu ela chorou. Às vezes eu mostro minhas músicas novas pra ela, que tem a emoção muito solta: se for forte ela chora, ri, viaja; se não der liga ela me diz na hora: nesse sentido de ser o piloto de provas das minhas músicas, ela é quase minha parceira.

Em qual contexto você a compôs?

Demorei pra finalizar, tinha até muito mais letra, mas veio vindo aos borbotões, e por incrível que pareça, veio fácil, natural, quase pronta. O trabalho foi mais editar, cantar, mas já veio bem pronta. Não é sempre que acontece assim. E acho que tem a ver com alguma época em que eu tava cismado com o amor idealizado, seguramente deve ter sido feita em uma época em que minha cabeça tava trovoando muito mesmo.

Fala um pouco mais sobre a recepção do público com Trovoa? Onde ela tem tocado?

Que nem eu te falei, o público reage muito intensamente. Tem gente que chora. Tem gente que me escreve que se sentiu expressada na música. O fato é que bate nas pessoas, tem lugares em que eu canto e o público canta ela inteira junto comigo. A internet ajudou a espalhar, o boca a boca foi forte, e também, muito importante, foi a gravação que o Metá Metá fez dela, com a maravilhosa Juçara Marçal cantando lindamente. Levou a canção pra outros públicos, me fez entender que os sentimentos que tavam nela eram comum a gentes muito diferentes.

Trovoa entra na sua lista de melhores músicas da sua carreira, juntando Mulheres e sua carreira solo?

Eu nunca penso muito nisso. Meio que dou o mesmo valor pra cada canção. Eu jogo muita coisa fora e, se for pensar, pelo tempo que eu tenho de carreira, tenho até poucas músicas. Mas o que eu deixo vir a público é sempre intenso, porque já escapou da minha autocrítica pesada. Então, o que sobra tem que ter força, eu tenho que gostar muito. Agora, pela resposta que eu tenho do público, vejo que é mesmo uma das favoritas, junto com Pan y Leche, Um Dia Útil, mais uma ou outra. Mas pra mim todas têm meio que a mesma importância: eu sou que nem mamma italiana, que gosta igual de todos os bambini.

Queria que você falasse um pouco, também, da importância de São Paulo na música. A cidade aparece como pano de fundo em uma série de momentos: no aço frio do metrô, no nascer do sol visto da Vila Ipojuca, na padoca de Santa Cecília, nas ruas da Lapa. Pela própria estrutura da melodia, a estética da poesia, poderia Trovoa se passar em outro lugar que não São Paulo? Porque pra mim ela parece tão essencialmente paulistana.

Me parece uma canção metropolitana. Precisa do espaço e do vazio duma cidade grande pra se desenrolar. Mas dita e cantada desse modo só podia ser em SP. Tem a geografia, tem o jeito cotidiano, meio bruto, de falar, que é coisa nossa, tem uma pitada de rap. E foi feita numa época em q eu resolvi exacerbar a minha paulistanice, como se eu me sentisse num exílio em relação ao Brasil, como se eu cantasse numa língua ouvida e entendida só aqui em SP, na nossa solidão, no nosso estresse. Eu digo que o meu disco Pra Marte, de 2007, foi escrito em dialeto.

O maior dilema pra mim, pra entender você como artista, compositor, é se você é ou não pretensioso. Me parece que sua simplicidade é tão sofisticada que, de alguma maneira, você sabe que tá fazendo algo grandioso. Você pensa nisso? (Por exemplo, pra mim me parece meio claro que daqui 50, 100 anos, Trovoa vai poder ser ouvida como um belo retrato do nosso tempo, das relações sociais no nosso tempo. E isso não é pouca coisa. Mas parece que é uma canção que nasce pra ser clássica).

Tem a ver. Eu sou um cara simples. Acho que minhas canções são simples também, coisas que acontecem com qualquer um. Sou pretensioso no sentido de que quero que minha música bata com força na emoção das pessoas, que afete elas de algum modo, que elas levem pra casa e usem. Quanto a uma música ser durável, isso é também uma questão de sobrevivência: um artista independente não vende muito, não tem muita visibilidade. Então, um jeito de ter mais público é fazer canções duráveis, pra eu ter mais chances de ser ouvido, ao longo do tempo. Ainda sobre durabilidade duma obra de arte, pensa comigo: os assuntos da arte são poucos. A vida, a morte, a fome, a justiça, paixões, essa meia dúzia habitual. Uma canção que fale deles tá atual sempre. Por isso que tem tanta canção q não morre nunca, compositores populares são tipos que flagram muito o coração das pessoas, faz parte do ofício tentar fazer música clássica.

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