Belchior ouve estrelas*

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A Época publicou, na semana passada, uma muito bem escrita reportagem, assinada por Marcelo Bortoloti, sobre o que poderia ser “A divina tragédia de Belchior”, provavelmente a melhor história contada sobre um personagem da música brasileira de 2013.

Marcelo não escuta Belchior e nem sua parceira, mas faz um bom trabalho ao recontar os passos da jornada que o senhor latino-americano experimenta, por escolha, desde 2009. Escapa certa má vontade com a “militante de esquerda radical” nova namorada do cantor- descrita no enredo como uma espécie de Eva que apresenta ao artista o pecado original, mas tem o mérito de sustentar um tipo de racionalidade por trás de atos aparentemente impensáveis para um homem que poderia ser, num termo que se usa hoje em dia e nem se percebe a violência que o compõe, “produtivo”.

A questão – o problema mesmo – é que, e isso não é culpa nem de Marcelo nem da atitude peculiar de Belchior, mas sim da maneira como “nosso tempo” tem tratado as coisas da vida, este desaparecimento (acho que é essa a palavra mesmo) do compositor cearense tem dado à memória sobre ele construída no imaginário cultural destes dias um caráter de exotismo. Bom, ser considerado exótico, vá lá, não é exatamente degradante – mas é, no mínimo, reducionista, se falamos de um dos maiores escritores da música brasileira em todos os tempos.

Aliás, esse parece ser o grande lamento dos empresários que cercam o cantor: não poder surfar na onda da peculiaridade e capitalizar o exotismo. O empresário Jackson Martins diz que recebe constantes pedidos para shows, mas não consegue localizá-lo desde 2007. “Pago as dívidas dele se ele voltar”, diz. Outro empresário que trabalhou com Belchior por quase 30 anos, Hélio Rodrigues, diz que o desaparecimento fez aumentar o interesse do público. “Depois do escândalo, ele consegue lotar qualquer casa de espetáculo. Com dois shows em São Paulo, eliminaria as dívidas”, diz.

A grande notícia é que Belchior parece não dar a mínima. Não adotou esse tipo de vida pra atrair a atenção de ninguém, não desapareceu porque queria dar um “golpe de marketing” (argh!). Os motivos ninguém vai saber, são dele. Mas pelo que cantava, e parecia de fato sincero, o tipo de sociabilidade para qual virou as costas não deve estar fazendo tanta falta. Porque “a vida realmente é diferente, quer dizer, a vida é muito pior”.

Segundo os relatos, Belchior não canta mais – o que poderia ser uma contradição com sua promessa mais poderosa, numa paródia respeitosa a Olavo Bilac guardada pro fim da sua referência mais substantiva a Dante, a música “Divina Comédia Humana”: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, que enquanto houver, espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não, eu canto”.

Bom, é bem verdade que suas músicas são poderosas e duradouras e seguem dizendo não, e seguirão, porque têm a capacidade de superar os contextos e a época em que foram escritas. Mas mais que isso, Belchior mesmo segue dizendo não. Sem cantar, mas diz; o que acaba por ser, no final das contas, também uma bem interessante canção.

E a sociedade do nosso tempo, dos memes e das piadas, da superficialidade e da canalhice, dirá a Belchior, como o amigo incrédulo disse a Bilac, quando este garantiu conversar todas as noites com as estrelas: “Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?”. E Bilac responderá por ele e pelo senhor que ainda tinge o bigode, mas que desde jovem soube que o novo sempre vem: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas”.


* texto publicado no blog da Revista Fórum