Mandando Bala (2004) de Rossana Decelso

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Uma iniciativa improvável e despretensiosa completou dez anos neste 2014. Foi em 2004 quando a então empresária do cantor e compositor Zeca Baleiro, Rossana Decelso resolveu mexer no baú de canções inéditas do amigo para reviver, ou registrar, as melhores canções perdidas do repertório do maranhense.
Composta só por músicas de Baleiro que antecederam seu primeiro disco, Por onde andará Stephen Fry? (1997), o “Mandando Bala” é poderoso. Produzido pelo craque Maurício Pereira, o disco tem 12 faixas que revelam os primeiros traços de um letrista que conquistaria corações nacionais com suas analogias improváveis e suas rimas escorregadias.

mandandobala
No entanto, diferente do que pode imaginar meu caro leitor dado às concepções evolucionistas de mundo, o “Mandando Bala” não mostra simplesmente “noções embrionárias” de um compositor que ainda estava se encontrando e que, mais tarde, se mostraria ao grande público – tendo em Bandeira, sua obra-prima, seu cartão de visitas inicial. Mostra sim, já ali, um compositor maiúsculo do cancioneiro nacional. O disco é mais do que uma coletânea de bons momentos. É um discaço!

Não sei bem qual o “lugar” de Baleiro entre os compositores nacionais, mas imagino que, no geral, pouca gente o associaria à estética macabra – como fazem, por exemplo, com Macalé. No entanto, tendo contato com suas composições inéditas, chama a atenção que das doze músicas escolhidas pela empresária para revivê-las, pelo menos quatro trafegam em algum sentido nessa direção. Impossível ouvir Rossana avisando com sua voz suave, cristalina e cortante na sugestiva canção de Nero “se você tem medo do fogo saia já de perto de  mim, eu sou uma brasa, mora?” e não ficar minimamente assombrado. O tom maldito se acentua com a belíssima Canibal, que traz uma poesia exuberante de Baleiro: “nesse antro de orgia minha antropofagia só você que sacia, nessa selva selvagem só você me sacia, só você me dá fome e essa fome consome minha vida vazia, nessa farsa sem nome comer me alivia”, reaparece com a vampiresca Frank Zappa “agora sou vampiro, negra é minha capa, pescoço nenhum do meu canino escapa, você era princesa, hoje é sapa, devolve o meu disco de Frank Zappa” e explode na parceria Baleiro/Chico César, Mortemor: “a morte é como um nu frontal, não choca mais ninguém. A vida vai vai vai até que a morte vem. Uma criança que cai da gangorra, o amor da gente gritando – eu quero que você morra! Com convicção, descuido ou desdém. A morte é como um nu frontal, não choca mais ninguém”.

Se procurarmos em outros momentos da carreira de Baleiro, a “maldição” aparece quase uma dezena de vezes, seja em canções objetivamente assustadoras, como “Cachorro Doido” (2005), A Serpente (2002),  em referências a “compositores malditos” como em Maldição (1999) e Daqui pra lá de lá pra cá (2003), nas maledicência de amor, como em “Você só pensa em grana” (2000), ou nas finas ironias de Heavy Metal do Senhor (1997) e a vinheta de “Coração do Homem Bomba” (2008), entre outras.

Mas nem só de terror vive o “Mandando Bala”. O Baleiro das referências, das palavras inesperadas, está lá, o tempo todo, potente. Rossana é brilhante por deixar soar cada uma das palavras escolhidas com um tom que não revelava a improbabilidade de estarmos ouvindo justamente aquelas palavras. Só o eu-lírico de Zeca Baleiro poderia cortejar uma musa dizendo as seguintes palavras: “Baby, deixa eu ser seu Lamartine Babo, o seu sabonete Phebo, serás o vinho que bebo, meu baião, meu xote, xaxado, um maxixe, meu quiabo. Baby vou te dar, minha zuera, meu batuque, minha esmola, meu smoking, meu book, meu songbook, o meu look Woodstock, meu rock, Loki, meu roll”. Esse mesmo talento de metralhadora de palavras pitorescas e bem escolhidas aparece no ponto alto do disco, a espetacular “Belzebu de Saias”, que já havíamos aqui indicado na lista de “10 canções obscuras da MPB”. Nem tem como selecionar uma frase desse samba de breque de escárnio. Tem que ouvir na íntegra:

Ao meu ver, este é um dos melhores “Baleiros” – acredito que o compositor maranhense tem uma produção tão ampla e difusa que não dá pra pensarmos em “um só Baleiro”. Acho que  o Baleiro que merece o posto entre os grandes da MPB é o Baleiro de Bandeira (1997), de (Skap 1997), de Brigitte Bardot (2000), de Mundo dos Negócios (2002), de Balada de Agosto (2003), de A depender de mim (2010), Trova (2008) – todas canções exuberantes. Mas esse Baleiro, carismático, irreverente e potente, é também sensacional! O Baleiro de Parque de Juraci (1997), Bienal (1999), Samba do Approach (1999), Babylon (2000), O Hacker (2002), Canhoteiro (2003), Meu amor minha flor minha menina (2005), Telegrama (2002), Pastiche (2008), Ela não se parece com ninguém (2012).

Por fim, queria destacar ainda duas canções deste disco que são absolutamente sedutoras. Uma das características que pelo menos sempre marcou Baleiro, pra mim, foram a sua predileção por ser popular, no sentido mais real e bonito da palavra. O compositor nunca quis ter uma obra fechada, embora seja capaz de produzir coisas do mais alto grau de sofisticação poética. Neste disco, me encantam, neste aspecto, “Papelão” e “Agora”. É torturante saber que estas duas lindíssimas canções são basicamente desconhecidas por uma fatia maior do público porque tenho a impressão que elas seriam adoradas assim que chegassem aos ouvidos.

Mandando Bala (2004), é uma pérola perdida do cancioneiro popular brasileiro porque traz uma produção de primeira, um elenco de elite, uma intérprete tão ligada ao compositor que nos faz crer que toda frase foi feita para que ela cantasse e, sobretudo, uma série de composições grandiosas de Baleiro, pra mim, sem dúvida, um dos grandes nomes da história da MPB.

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Como sempre fui muito fã do Zeca Baleiro, acompanhei o lançamento do disco na época e lembro ter ouvido na “Jukebox” que a Saravá Records tinha no site oficial do compositor. Mais tarde, o vi disponível na Rádio UOL – ainda está, cliquem aqui pra ouvir! Mas me incomodava não ter a peça, em si, em mãos.

Há algumas semanas entrei em contato com Rossana explicando minha paixão por esse disco e ela, muito amavelmente, me enviou uma cópia. Como gosto de abusar da boa vontade alheia, pedi que ela respondesse algumas perguntas sobre esse disco, afim de que eu pudesse publicar aqui neste espaço e ela, outra vez muito gentil, topou. O resultado publico abaixo (mantenho a forma original das respostas porque acho que faz mais sentido).

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Rossana, o “Mandando Bala” tem uma característica que é bem peculiar e única – eu, pelo menos, não conheço algo parecido. Ele é um disco que de alguma maneira faz parte da Discografia do Zeca Baleiro – em tese, seria o primeiro né? (as composições são todas anteriores ao Por onde Andará Stephen Fry), mas é também o disco de estreia seu, como cantora. A relação de vocês é assim, não diria umbilical, mas siamesa? E como é, pra você, que é também fã do Baleiro, fazer parte da Discografia dele de um jeito tão relevante?

rs..nunca pensei dessa forma, Guilherme, que o meu disco integrasse a discografia do Zeca embora composto só por canções dele, inéditas que ele teria deixado de lado. A maioria eu já cantava em meu shows e queria registrar.  Relação “siamesa” é um pouco demais…rs… temos um forte laço de amizade do qual me orgulho muito mas acho que o meu papel mais relevante foi trabalhar pela carreira dele. Considero o meu disco um desdobramento, um símbolo de nossa afinidade estética e pessoal.

Sei que desde o lançamento do disco, em 2006, sua ideia foi mesmo que o projeto servisse mais como registro do que como pontapé inicial de uma carreira. Mas em nenhum momento você ficou tentada pra ver o que poderia dar? Nunca projetou, por exemplo, uma turnê em parceria com o próprio Baleiro?

O meu cd foi lançado em 2004, ou seja, há 10 anos! Pra ser bem franca, nunca tive a intenção de fazer show do disco. Não tinha tempo pra isso e nem vontade. No passado, Zeca e eu fizemos shows juntos mas desde muito tempo eu estava do outro lado, empenhada no business e seria um despropósito. Além disso, não me considero artista no sentido clássico da palavra. Por estar ali nos bastidores, lidando com todo o resto para as coisas acontecerem, confesso que perdi o encanto e não me sentia atraída pelos holofotes. Não que fosse ruim mas penso que sou um pouco arredia, mal-humorada…não sei se conseguiria manter fãs…rsrs..

Como foi a seleção do repertório para o disco? Imagino que existam mais músicas abandonadas no baú do Baleiro. Por que estas?

Tenho um pequeno acervo de músicas inéditas do Zeca, do início de sua produção. Nos conhecemos em 1986 e desde então, ele sempre gravava uns cassetes e me mandava pelo correio ( eu em BH e ele em São Luis) com as composições mais recentes. Sempre que nos encontrávamos eu pedia que ele tocasse e gravava. A escolha foi natural, músicas que eu mais gostava, que já tinha cantado, que cantávamos em nossas rodas entre amigos. A escolha inicial foi de umas 20, mas fui excluindo o que ele gravava ou que outros intérpretes gravavam, outras que ficaram datadas ou que já não me diziam mais.

Atualmente você ainda trabalha com o Baleiro? E segue atuando na Saravá Records também?

Estive à frente da carreira do Zeca por quase 15 anos e gosto de crer que tive um papel importante. Agora estou só na editora, trabalho que amo fazer. Mas a parceria com ele é espiritual, interminável (rs). Há 2 anos comecei a trabalhar com meu conterrâneo Vander Lee, artista que também admiro e me dedico hoje, com grandes pretensões de conduzi-lo, com o potencial que tem, a alcançar um patamar de mainstream.
Você está preparando um disco para o ano que vem. Me fale um pouco mais desse novo projeto. Dessa vez os planos vão ser diferentes ou vai continuar atuando nos bastidores?

 Acho que vai ser diferente, estou tentada a experimentar o palco novamente, quero me divertir um pouco e desfrutar da música por puro prazer, despreocupada com mercado e sucesso. O novo cd vem com 10 faixas, sendo 5 inéditas do Zeca e outras 5 músicas conhecidas, de outros autores que também fazem parte de meu universo afetivo-musical. Mas continuo nos bastidores também porque gosto de realizar, assessorar, transmitir confiança/apoiar e defender idéias como se fossem minhas, pensar estratégias, analisar carreiras e corrigir desvios de rota. Tenho essa pretensão e um temperamento plural que me leva a desvendar o processo de toda atividade necessária para alcançar o melhor resultado.