Dez tesouros obscuros da Música Popular Brasileira

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ssampaio

O “Fiz uma lista” abre seus trabalhos com um top 10! Uma lista com aquelas canções que considero “Dez Tesouros Obscuros da MPB”. Obviamente que o critério aqui é polêmico e segue mais meus gostos, duvidosos que eu sei, e conhecimentos, parcos, como só poderia ser.

10) Canalha (Walter Franco)
A música que abre este Top 10 é também a mais pesada de toda a lista. No Festival da TV Tupi, de 1979, Ziraldo, do Pasquim, apresentou, sob vaias de parte da plateia que não entendeu bem o que se passava, “Canalha” como “um grito primal ou uma sublimação da dor, a nova e original proposta de Walter Franco”. Ela é tudo isso mesmo. Mas é mais que isso também: é uma grande canção. Por isso acredito que ela devesse entrar para o rol de grandes canções da história da MPB e não como um dos episódios finais da Era dos Festivais. Se à época ela marcou pela sofisticação e experimentalismo, 34 anos e muitos gritos depois, ela ainda sobrevive graças à simplicidade do que diz.

9) Balada para Jonh e Yoko (Titãs)

Os Titãs souberam fizeram absolutamente tudo que era possível para ressuscitar as músicas da primeira fase da banda que, por algum motivo, não emplacaram nos anos 80, mas essa fantástica pérola continuou na sombra. A versão da banda paulista para a música de Lennon e McCartney é espetacular. Fugindo da obrigação de fazer uma tradução literal, Sergio Britto, um compositor underrated, incorpora elementos impagáveis no clássico dos Beatles.

8) Belzebu de Saias (Rossana DeCelso e Zeca Baleiro)

Em 2004, Zeca Baleiro resolveu juntar suas composições de 1991 a 1996 que acabaram não entrando em seus primeiros discos e ficando pro baú, chamou Maurício Pereira e Edson Natale pra cuidar da produção e sua empresária, a Rossana DeCelso para cantar. Deste esforço despretensioso saiu o ótimo “Mandando Bala”, um disco que é tão obscuro que nem sei como fazer pra comprar. Entre várias ótimas músicas, Belzebu de Saias, um samba de breque de escárnio, é inegavelmente a grande faixa. Em um dos seus melhores momentos como compositor, Baleiro consegue rimar, na mesma estrofe,”mocréia”, “Medéia” e “Wanderléa”. Espetacular.

7) Andando e Andando em Copacabana (Oswaldo Montenegro)

Reconhecido como um dos grandes compositores brasileiros por conta de Lua Flor e Bandolins, Oswaldo Montenegro é um gigante e deveria ser mais ouvido. Em homenagem à sua inestimável capacidade de fazer rir e chorar, as vezes na mesma música, seleciono um de seus blues mais irreverentes e menos ouvidos, uma autêntica presepada sobre a moça que até hoje se ufana de ter lido Goethe no original.

6) Napoleão (Paulo Vanzolini)

Nenhum compositor brasileiro, a não ser Paulo Vanzolini, poderia escrever “Pondo a modéstia de parte, é Napoleão Bonaparte e eu que sabemos de verdade quanto dói uma saudade”. Vanzolini consegue ser irreverente sem ser bocó, erudito sem ser pedante, popular sem ser grosseiro, refinado sem ser elitista. E algum intérprete do nosso tempo devia gravar Napoleão como homenagem, não só por seu recém falecimento, mas pela divulgação de sua gigantesca obra, que em boa parte, segue obscura para os ouvidos do nosso tempo. Aqui na voz de Luiz Carlos Paraná.

5) Se o caso é chorar (Tom Zé)

Este fenômeno Tom Zé é ele, todo ele, um grande obscuro. Sua obra muitas vezes é tão fechada, tão enigmática, que precisou de um carimbo internacional – o de David Byrne – para que fosse minimamente aceita pelo cenário underground nacional (e não exageremos, não passa daí). Tom Zé hoje goza prestígio e pode se dizer que está tendo uma velhice tranquila, o que, se não é condizente com sua grandeza como compositor, é ao menos melhor do que teve durante as três primeiras décadas de trajetória musical. Reivindico, aqui, “Se o caso é chorar”, para lembrar que o caráter experimental de seus trabalhos, muitas vezes vezes escondeu uma capacidade incrível de fazer emocionar, como nesta música vemos. Ainda que, na verdade, tudo não fosse apenas um truque de um entediado Tom Zé para mostrar sua superioridade intelectual e rir da indústria musical que nunca soube, nem saberia, lhe entender.

4) Chorinho Inconsequente (Miriam Batucada)

Conhecida por sua facilidade em batucar em qualquer canto, Miriam foi convidada, em 1971, por Raul Seixas para compor a “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista”, um projeto alternativo capitaneado pelo Maluco Beleza na época de produtor da CBS. No disco “Sessão das 10”, que foi recebido com muita estranheza na época, Miriam aparece com a fantasia de Superman na capa, ao lado de Raulzito, Sergio Sampaio e Edy Star. É a cantora paulista a responsável por um dos pontos altos do disco, a interpretação de Chorinho Inconsequente, um samba com guitarras afiadas composto por Star e Sampaio.

3) Magia Pura (Sergio Sampaio)

Sergio Sampaio é um dos maiores compositores da história da língua portuguesa. Dentre aqueles que não gozam de prestígio e fama no imaginário popular cultural brasileiro, é, sem dúvida, o maior de todos. Este capixaba mereceria, só por isso, um top 10 de tesouros obscuros da MPB todo, só pra ele – em breve eu faço. Por ora, aponto Magia Pura, mas poderia ser tantas outras. Nesta faixa, um apaixonado Sampaio metralha sua musa inspiradora de perguntas, tentando entender de onde vem seu tamanho encanto: “Qual diabrura, que loucura empregastes pra eu ficar afim? Quantas cartomantes consultastes pra me seduzir”; “Foi brilho de lua que roubastes pra brilhar teus olhos tanto assim? Que magia pura foi aquela que eu não soube mais como dormir?”; “Qual o barro que o escultor maior usou, mulher, pra te esculpir? Quantos idiomas tu usastes pra me traduzir?”

2) Trovoa (Mauricio Pereira)

A letra de Trovoa é tão absurda, mas tão absurda, que na medida que a escutamos, a sensação é de que não é possível de que estejamos escutando uma música que esteja dizendo essas coisas. Há espaço para referências cotidianas simples como “nascer do sol visto da Vila Ipojuca” ou “sozinha na padoca em Santa Cecília”; para metáforas poéticas, “o aço frio do metrô, o halo fino da tua presença” ou “meu amor é imenso, maior do que penso, é denso, espessa nuvem de perfume intenso”; gradações inacreditáveis como “sabe, você tá tão chique, meio freak, anos 70, fique, fica comigo” ou “por sobre as mesas de fórmica, num salão de cerâmica, onde soem os cânticos, convicção monogâmica, deslocamento atômico, para um instante único, em que o poema lírico se mostre a coisa mais lógica”; e, por fim, para o desespero de um apaixonado sincero em “acho que eu teria um troço se você dissesse que não tem negócio” ou “se você for embora eu vou virar mendigo”. Mauricio Pereira é um monstro.

1) Maiúsculo (Sergio Sampaio)

Como disse antes, Sergio Sampaio merecia 10 músicas nesta lista. Fica com três, entre elas, a primeira. Maiúsculo é, digamos, a música que sintetiza melhor a proposta deste top 10: não há nada mais obscuro que essa canção. É verdade que praticamente toda trajetória deste caxoeirense foi construída à margem da mídia e do grande público, mas Maiúsculo é lado B dentro da própria obra de Sampaio. Essa canção nunca foi gravada para um disco, embora fizesse parte de seu repertório de pequenos shows que fez no final de sua vida. Há ainda uma história curiosa por detrás de seu “aparecimento”: depois de um contato no Rio de Janeiro com jovens estudantes maranhenses em 1989, Sampaio ficou de responder algumas perguntas para uma entrevista para uma espécie de fanzine idealizado por universitários de São Luís. Como nunca foi lá muito pontual e cumpridor de prazos, Sergio acabou enviando as respostas, por correio, tarde demais: a revista já tinha sido publicada sem sua participação. A questão é que, junto com as perguntas respondidas, de surpresa, Sampaio enviou aos garotos uma fita k7 com uma música, gravada de maneira artesanal só com voz e violão, que segundo o capixaba explicava o tipo de canções que ele estava trabalhando no momento: era Maiúsculo. 15 anos depois um destes rapazes, Zeca Baleiro, foi o responsáveis por organizar e publicar o disco póstumo de Sergio Sampaio, Cruel, álbum com diversas canções inéditas, entre elas, Maiúsculo.