As dez melhores do Pato Fu

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Não sei bem qual o lugar do Pato Fu no (Pop) Rock [ainda existe isso?] Brasileiro. Nos últimos anos, ao menos à distância, o que vejo é mais silêncio do que produção – embora, curiosamente, a sua vocalista, Fernanda Takai, em sua carreira solo (como intérprete, sobretudo, de Nara Leão), nunca tenha ocupado um espaço tão relevante como nestes tempos.

Considero o quarteto mineiro uma das bandas mais relevantes, inovadoras, inquietas e interessantes das décadas de 1990 e 00 e me confesso um tanto frustrado e incomodado com este longo hiato sem novas músicas com a identidade Pato Fu que dura desde 2007, ano que o grupo lançou o último álbum de inéditas.

Para mim, John, líder intelectual da banda, é uma das mentes musicais mais brilhantes – e curiosamente menos reconhecidas – do rock nacional.

O grupo anunciou nesta semana que, finalmente, voltou aos estúdios para gravar um disco de composições próprias. De quebra, anunciou uma mudança significativa: sai o boa praça Xande da batera pra entrada do Glauco, ex-Tianastácia que já vinha envolvido nos projetos solos da Fernanda Takai.

Pra comemorar essa boa notícia, listo abaixo as minhas dez músicas preferidas do Pato Fu. Como qualquer lista, existirão ausências imperdoáveis e presenças duviosas. Vem comigo.

Tribunal de causas realmente pequenas (Ruído Rosa)  

Mais um singelo e sutil momento do Ruído Rosa, composta pela Fernanda e John, Tribunal de causas realmente pequenas é mais longa que este trecho, mas esse minuto de música já vale uma reflexão para semanas. Não vale?

Vivo num morro (Televisão de Cachorro) 

Uma das grandes músicas da banda, “Vivo num morro” dialoga com jazz moderno e o funk, em um dos grandes momentos da carreira de compositor desse fenômeno chamado John Ulhoa. Ah, e antes que eu me esqueça: uma aula de base e peso do baixista Ricardo Koctus.

Antes que seja tarde (Televisão de Cachorro) 


Dona de um refrão que está certamente entre os mais bonitos da música brasileira da primeira década do século XXI [Na verdade continuo sob a mesma condição, distraindo a verdade e enganando o coração], Antes que seja tarde é um dos grandes sucessos da história da banda. Com um clipe lindo e uma letra poderosa, esta balada condensa o que o Pato Fu tem de melhor: sutileza, sensibilidade e uma sinceridade de dizer o que quer dizer de maneira cortante.

Vida Imbecil (Gol de quem?) 


Talvez um dos primeiros gritos de irreverência aliada à sutileza na cronologia da carreira da banda, Vida Imbecil parece marcar um momento de transição porque de certa maneira articula a irreverência e a ousadia experimental musical (que nunca é abandonada, mas, mais pra frente, filtrada e melhor localizada) com uma percepção crítica do mundo. A estrofe em que diz que “Quem crê diz que tudo consegue, e em tudo aquilo que cri, eu cri até que desisti, desisti porque não consegui, cê vê que imbecil é a vida?” é um dos grandes momentos do disco Gol de Quem?

A verdade sobre o tempo (Daqui pro futuro)  


Se em sobre o tempo, no Gol de Quem?, John chamava o deus dos dias e das horas de amigo e pedia para que ele só lhe derrubasse no final, em Daqui pro futuro, mais maduro, o compositor não parece mais tratá-lo com a impessoalidade de um “mano velho”. Mas também não o considera um vilão. Inexorável como só ele pode ser, ele é fundamentalmente uma ilusão. A vida é só um sopro, um vento e nada mais, e, ao mesmo tempo, mais do que os dias, os deuses e os jornais. Impossível não ouvir a apresentação de Fernanda no cemitério, apenas com o ritmo dos ponteiros, num metrônomo, e não se emocionar.

Por que te vas? (Tem mas acabou) 


Não poderia deixar de fora dessa lista o Tem mas acabou, disco que não é exatamente grandioso – apesar da produção de André Abujamra, mas é certamente o mais carismático da banda. Fiquei entre Água, Pinga e Por que te vas, minhas três favoritas e curiosamente escolhi, motivado por este arranjo primoroso, a versão que o grupo fez da música do romântico/quase brega José Luis Perales, Por que te vas.
Perdendo os Dentes (Isopor) 

Quatro anos antes de Marcelo Camelo cantar que não queria mais ser um vencedor, Fernanda Takai e John questionavam, em Perdendo os Dentes, o sentido da vitória. Simples, feroz e objetiva, essa música está entre as mais populares da banda, agradando tanto os fãs mais antigos como o grande público, que com esse disco, passou a conhecer o Pato Fu na virada do século, período que o grupo, do ponto de vista da popularidade e da visibilidade, viveu seu auge.

Ninguém (Ruído Rosa) 

Grande disco da banda, o Ruído Rosa é um misto de silêncio com reflexão minimalista e ligeiras explosões inesperadas. Ninguém é do primeiro tipo: uma ode à invisibilidade, que é também uma maneira sutil de não lidar com as coisas da vida.

Imperfeito (Isopor) 


Como não adorar Imperfeito? Numa balada dançante e carismática e em mais um grande momento de John como compositor, Fernanda Takai pergunta, numa sinceridade teimosa e detestável: “o que há de errado em ser tão errado assim?”. Nada, Fernandinha, nada.

Qualquer bobagem (Gol de quem?) 

Uma releitura da clássica Qualquer Bobagem, música de Tom Zé e dos Mutantes, a faixa 9 do Gol de Quem é um dos pontos altos do segundo disco da banda. Numa versão bastante original e audaciosa, o grupo mineiro se aproveitou da era dos videoclipes da MTV para divulgar seu trabalho e se tornar um pouco mais conhecido no cenário nacional. Qualquer Bobagem servia também pra situar o experimentalismo da banda como uma de suas identidades para o público (foi o segundo diálogo com os tropicalistas, depois de gravar Sítio do Pica Pau Amarelo no primeiro disco).

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