Um só Marighella

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A memória de Marighella está em disputa. Todas as memórias estão em constante disputa.

Símbolo histórico da luta comunista brasileira – no sentido literal da palavra, o mulato baiano recebeu duas reverências de exuberante relevância da música brasileira: “Um Comunista”, a sexta faixa do “Abraçaço”, disco de 2012 de Caetano Veloso, e “Mil Faces de um homem leal”, dos Racionais, que virou “single” e clipe em 2012 – divulgada na época como uma faixa antecipada do novo disco que sairia em 2014, a música não consta no “Cores e Valores”, lançado esta semana.

As duas canções falam de lugares e para públicos distintos. Ambos têm também uma leitura diferente da prática do homenageado. No entanto, ambos reverenciam um só Marighella.

Na emocionante “Um Comunista”, Caetano biografa o “filho de um italiano e uma preta hauçá” que “como são os comunistas” “sempre foi perseguido nas minúcias das pistas” numa reverência inconteste, mas não passiva. Veloso, ainda que não creia “em violência e guerrilha, tédio, horror e maravilha”, entende que um comunista nasce “prestando atenção ao que não estava à vista” e que “vida sem utopia” não existe. Atento às relações estabelecidas que puseram fim à vida do “mulato baiano, muito alto e mulato”, Caetano chama atenção para o fato de que aqueles que perseguiam Marighella o fizeram não em defesa da alegada democracia “contra as nações terror que o comunismo urdia, mas por vãos interesses de poder e dinheiro, quase sempre por menos, quase nunca por mais”. A radiografia final da raça humana de nosso tempo: “que segue trágica sempre”, “calçadões encardidos, multidões apodrecem, há um abismo entre homens e homens, o horror” dá a vitória, na dialética de Caetano, ao romantismo de Marighella porque “os comunistas guardavam sonhos”, frase que não por acaso, é o refrão dessa ode à luta comuna sobre a qual o PCB ainda teve a insensibilidade de chiar. Por fim, a pergunta de Caetano ainda ressoa e segue sem respostas: “quem e como fará com que a terra se acenda?”.

No clipe de “Mil faces de um homem leal”, Mano Brown interpreta o próprio Marighella, num chamamento popular à luta armada, encenando um dos momentos mais épicos da trajetória da ALN: a tomada da Rádio Nacional de 1969 e a divulgação de um manifesto escrito pelo revolucionário. Se Caetano escreve do lugar de um analista sofisticado e corajoso das nuances políticas, estéticas e culturais do Brasil, Mano Brown vem de um ponto de vista muito diferente. O vocalista e principal letrista dos Racionais não é nada menos do que uma espécie de profeta da nova e mais precária classe trabalhadora brasileira – aquela que se criou distante das fábricas na reconfiguração e acirramento que o mundo do trabalho e a lógica de urbanização experimentaram nas últimas décadas no país. Acho que ainda não é possível mensurar o grau de penetração e organização de classe que o “Sobrevivendo no Inferno” (1997) propiciou, mas suponho que esse disco – e os outros do grupo, consequentemente, tenha mais do que dado voz à periferia, mas também pautado politicamente um discurso e uma percepção social identitária. É impactante o verso de Emicida em Ubuntu Fristili: “nossos livros de história foram discos”.

Na homenagem a Marighella, Mano Brown o coloca na posição de um herói nacional. Em seus shows ao vivo, a canção começa com todos os integrantes parados no meio do palco (mais de 20), quase todos negros, com o punho direito em riste, imitando o gesto “black power”, numa resposta clara e cantada: “a postos para o seu general”. No contexto da obra dOs Racionais, reivindicar a violência libertadora é antes de mais nada, uma reação. “Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal por menos de um real minha chance era pouca”, cantou em seu capítulo quatro versículo três. Nesta exaltação, o “homem leal” é um “protetor das multidões, encarnação de célebres malandros, de cérebros brilhantes”, “defensor dos fracos”, aquele que reage ao revés. Enfim, “um anjo” que “vai morrer por mim, por você, por ter coragem em dizer”.

As reverências, tanto a de Caetano como a de Mano Brown, recuperam um só Marighella: aquele que pegou em armas para fazer uma revolução socialista no auge da ditadura civil-militar brasileira. Diferente de tantas recuperações de personagens históricos, que em geral são reivindicados numa versão “descafeinada”, o comunista baiano ganha duas canções de exaltação de dois dos nomes mais relevantes da história da música brasileira, justamente atentando para a sua disposição em transformar o mundo. Em um momento de ascensão conservadora, “Um comunista” e “Mil Faces de um homem leal” são duas grandes notícias em favor daqueles que têm uma visão de esquerda e se preocupam com o debate ideológico-cultural de nosso tempo. Elas dialogam com subjetividades distintas, com percepções e argumentos distintos – se de um lado Caetano reflete do outro, Mano instiga. Mas nenhuma delas abre mão do que é fundamental: a necessidade e a vontade de mudar o mundo.