Zerima: na montanha-russa com Luiz Melodia

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Uma das maiores vozes da MPB de todos os tempos e um dos artistas mais interessantes ainda em atividade, Luiz Melodia não produzia um disco de inéditas há mais de uma década – o que faz com que Zerima, álbum de 14 faixas lançado pela gigante do mercado fonográfico, Som Livre, esteja na lista obrigatória de obras para qualquer fã de MPB dedicar uma atenciosa audição em 2014.

Tarefa cumprida, é possível dizer que Zerima nem decepciona, nem impressiona. É um disco repleto de altos e baixos, inclusive na sua própria constituição faixa-a-faixa. Se por um lado, é verdade que pouca gente ainda ouve, em nossos tempos, um disco do começo ao fim respeitando a ordem proposta pelo álbum, por outro, parece adequado emprestar da percepção linear do antigo escutar do disco todo uma expressão que o caracteriza com precisão: uma montanha-russa.

O disco começa modesto, mas emocionante, da transição pra faixa que abre o disco, Cheia de Graça, irrelevante, para Dor de Carnaval, um comovente chorar numa bossa que conta com a explosiva participação de Céu. Igualmente modesta e mais ainda cativante é Vou com Você que antecede a melhor canção deste início de álbum, concluindo e consolidando uma trajetória ascendente da abertura dos trabalhos com Caindo de Bêbado, um samba-jazz brilhante que certamente está entre as grandes canções de 2014.

É sucedida por Nova Era, emprestada do repertório menos conhecido da parceria Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho (falecido no último novembro), que se situa justamente entre dois dos três grandes momentos do disco. Do coração de um homem bom  é uma canção poderosa de letra simples de Ricardo Augusto, de melodia exuberante, sustentada por este intérprete que mostra porque está entre os grandes da MPB. Uma aula!

Zerima, a canção que dá nome ao álbum, é uma bela peça de nostalgia que emociona, ainda que de maneira distante: não se chora por quem já morreu. No entanto, a menina do passado, que é por quem se canta a canção, partiu e, lá de cima, assiste ao nosso zanzar por aqui, “essa terra onde a gente morre”. Ela antecede duas parcerias românticas de Melodia com Renato Piau que não empolgam, Cura e Sonho Real.

É o preâmbulo para o grande momento do álbum: Leros e Leros e Boleros, música do primeiro disco do genial compositor capixaba Sergio Sampaio (Eu quero é botar meu bloco na rua – 1973), amigo com quem Melodia dividiu a mesa do boteco, o palco, o ostracismo e a alcunha de “maldito”, antes de voltar ao gosto do grande público nas últimas décadas. Repleta de referências ao cenário político/musical dos anos 70, Leros e Leros e Boleros interage com os “acordes dissonantes” da Tropicália de Caetano, com o tudo mais que vai pro inferno da Jovem Guarda (também referenciada na canção título do movimento tropicalista), com a ditadura militar e com a relação entre moderno e eterno, proposta de maneira bem-humorada por Carlos Drummond de Andrade em relação à escola literária a qual supostamente se filiava. Em um disco de 2014, as referências têm menos importância do que a profundidade daquilo que se canta em seu fundamento mais básico e profundo: o encontro com Deus que está no horizonte, num diálogo quase que direto com o que Zerima propunha. Na interpretação, Melodia não inventa e no arranjo, Julinho Teixeira sustenta a base melódica, embora troque as cordas que agrediam de maneira sutil na composição original por um piano mais comportado e um sax que, ainda que ousado nos solos, não chega a soar violento. Escolhas boas:

Como uma montanha-russa, o novo disco de Melodia experimenta a sua maior queda justamente quando estava em seu ponto mais alto. Papai do Céu, uma espécie de reggae-jazz irreverente e carismático, aparece perdida em um disco que tem outra aura, embora resista pelo seu caráter despretensioso – pra não dizer modesto. Por se tratar de um disco da Som Livre, não é exagero atentar para o fato de que esta parece ser a música mais comercializável de todo o álbum e que certamente emplacaria como hit caso fosse selecionada como tema de novela, ou algo do tipo. Depois dela, a versão de Maracangalha, de Dorival Caymmi, se apresenta basicamente como um desastre – impressão acentuada ao final da canção, quando rompe, em meio a uma realização que já se mostrava frustrante, Mahal Reis, num rap muito mal sucedido. Por fim, a cantiga de roda, Moça Bonita, e a instrumental, AmusicadoNicholas, passam sem deixar saudade, dando a certeza que, fosse os tempos de que as pessoas ouviam CD todo, na íntegra, interromperiam a audição três ou quatro faixas atrás.

De qualquer maneira, o final atrapalhado e desinteressante não é a tônica do disco. Em seu todo, se não parece ser um  álbum que se compare aos grandes trabalhos da carreira de Luiz Melodia, ele cumpre bem a tarefa de mostrar que a verve de compositor carismático deste fenomenal intérprete segue viva, e que sua voz é, ainda, um intocável tesouro da música brasileira.

*Leia outras críticas do novo disco do Luiz Melodia aqui e aqui.